ROSÁRIO DOS DANADOS

Cruzo-me com tantas figuras,

Quais balões de efeitos raros,

Que crescem com sinecuras,

E morrem com os reparos.

 

        - Pensavam que o Horácio se vendia por dez reis de mel coado? – protestava contra a sombra como se aquilo representasse a exigência da cabeça de alguém. – Andava agora a fazer a cama para os outros!... Enganam-se. Cacarejavam sem pôr o ovo, nunca. Comigo escusam de contar nem que me peçam de joelhos. Querem que seja Ronca, pois hei de continuar a roncar cada vez que me apetecer e discordar do que vir.

       Estava a voltar ao que sempre fora. Tivera uns tempos de algum silêncio cúmplice com situações que em nada o beneficiavam na esperança de um dia poder vir a participar no festim do poder a que gostava de bater palmas. Esperara até ao desespero. Agora o Ronca voltava a mostrar o seu desagrado em relação aquilo que lhe queriam impingir.

       Recordam que o Horácio terá protestado como podia contra o batismo que lhe foi imposto quando completou o primeiro mês de vida e nunca se terá sentido particularmente entusiasmado com a cartilha que lhe era servida em casa e na escola e lhe entrava pelos olhos dentro ao longo do ritmo sacralizado do ano. Entusiasmo, isso sim, acontecia em relação à religião paralela que abraçou: a política. Também aí ficou sujeito a ritos, alguns deles envoltos em grande secretismo. Após algum tempo de ritos iniciáticos pela mão do tio que sentira na pele o que significa remar contra a corrente e pagar com o degredo a ousadia de dar a cara por valores diferentes dos instituídos. Foi essa necessidade de ajustar contas com uma história que castigara a sua família que o levou a inscrever-se como militante ainda jovem e a manter as cotas sempre em dia para ter direito a manifestar as suas opiniões nesses cenáculos onde se traçam as grandes decisões para a vida coletiva.

       A princípio, o exemplo do tio foi determinante na sua escolha. Volvidos anos, o mais velho caiu numa espécie de ceticismo político. Perante a rutura com um passado de luta e de valores, o seu esmorecimento era um hino à sua memória de combatente denodado e um desafio ao aparelho partidário que tão facilmente se deixara cair no engodo de uma dúzia de párias cujo lustro aparecia ou desaparecia ao ritmo das mudanças de cor no governo da nação.

       O olhar constantemente para a retaguarda dilacerava o pescoço e a mente ao ancião que parecia cada vez mais sem motivações que dessem sentido à vida que continuava a gostar de viver. O sobrinho, por sua vez, olhava em sentido oposto: a um passado que desconhecera, mesmo nos livros, opunha um futuro que augurava de felicidade construído à sua imagem e semelhança. Tenaz na luta por uma sociedade que lhe preenchesse mais as medidas, lançavam-lhe em cara a imaturidade de corpo e de ideias. Aceitava a afronta no que tinha de verdade e seguia o seu caminho certo que o defeito de ser novo passaria com o tempo.

       A tenacidade foi reconhecida pela estrutura local do partido que o convidou a encabeçar a lista para a Junta de Freguesia de Fonte da Gralha. Nunca procurara tal honra, tal como destoava da sua forma de olhar a vida voltar costas à luta quando lhe era solicitado. Vai daí, vê-se confirmado no cargo pela vontade popular e em sintonia com o poder camarário. A coincidência deu motivo à festa no dia das eleições e a uma visita vem molhada de ilustres convidados às suas instalações etílicas. O Presidente da Câmara, inebriado ainda pela apoteótica tomada de posse, foi renovando as promessas feitas durante a campanha eleitoral e a sua disponibilidade para ajudar o correligionário a desempenhar com sucesso o seu mandato. O Horácio esfregava as mãos de contente. Eleições que viessem, estavam no papo!

     Foi sol de pouca dura. Ao acordar de um sonho colorido, o Presidente da Câmara apercebeu-se que a realidade era bem mais negra do que aparentava e que seria necessário estabelecer prioridades para que o magro orçamento respondesse às necessidades mais imperiosas e deixasse de lado tudo o que pudesse esperar sem comprometer a vida das populações.

        O Horácio longamente esperou a primeira obra para a freguesia. Depois de sucessivos adiamentos, surgiu a maior de todas as afrontas:

        - Construir um polidesportivo em Fonte da Gralha quando há aldeias sem saneamento, isso nunca – garantiu-lhe. – Estamos com dificuldades financeiras, mas, ainda que nadássemos em dinheiro, a postura seria a mesma. Há investimentos inúteis e esse seria um deles. Quantos miúdos nasceram na freguesia durante a última década?

       - Se vemos as coisas por esse prisma, então o que se pode fazer do que foi prometido? Para que queremos a sede da banda, da associação cultural ou o polo da Internet?

        - Aponte-me outra forma de ver que trate todos os munícipes em pé de igualdade e estou disposto a mudar. Até lá, só há esta forma de gerir aquilo que é de todos.

        Aí estava uma recusa sem possibilidade de recurso. Saiu da sua presença a deitar lume pelos olhos, pela boca, por todos os lados. Estava à espera de ser tratado doutra forma. Essa desfeita nem quando estava na oposição lhe ousaram fazer. A revolta instalou-se naquela relação cúmplice.

      Como “quem tem mazela, tudo lhe bate nela”, a partir daquele momento, tudo soava a desfeita, ingratidão ou mesmo perseguição. Mais uma desculpa inoportuna, uma promessa por cumprir, um prazo ultrapassado, uma indisponibilidade para o atender em entrevista marcada com semanas de antecedência e o caldo estava entornado de vez, pois:

Quem sabe a casa e te procura

Sempre que quer ser ajudado

Deve manter boa compostura

E pensar que há o outro lado.

Tudo aconteceu demasiado rápido. O pior de tudo é que os dois tinham razão. O homem fora talhado para outro fato e o Horácio desejava ardentemente que fizesse figura de rico um município que sem dinheiro para acorrer a todas as necessidades. A culpa era da falta de votantes. O jeito podia adquirir-se com o tempo, mas passar de concelho pobre a concelho rico era algo que estava para além das suas possibilidades.

- Ninguém gosta dele – garantia o Horácio numa tentativa de demarcação que só lhe podia ficar mal.

- A culpa é tua e doutros como tu que nunca estão contentes com a roupa que têm. Deixásseis o homem tranquilo a gozar a merecida reforma. tens de avisar os chefes que comecem a abrir os olhos e a acreditar que também há gente válida fora dos reformados. Rejeitaram essa ideia. tinha de ser aquele porque fora um excelente profissional enquanto esteve no ativo, todos lhe reconheciam capacidades de trabalho, blá-blá-blá, blá-blá-blá… Tudo isso fora verdade e até admito que lhe tenha rendido votos, mas aí está o resultado do teu empenho e de outros iluminados como tu.

       - O pior presidente de câmara que alguma vez tivemos, Teixeira. Quem o propôs devia andar ceguinho de todo. O homem nunca acreditou que pudesse ganhar e, por isso, prometia mundos e fundos a toda a gente que lhe aparecesse pela frente. Para a intenção que tinha de cumprir!... Agora é isto.

       - Está a corresponder às minhas expetativas. Mudam as moscas...

       - Se ao menos a merda fosse a mesma, ainda estou como o outro. É pior, muito pior. Um palhaço… um boneco… um bord’merda cheio de nove-horas a fazer de nós tolos.

      - Vai devagar, Horácio, que podes afogar-te em pouca água. Ainda mal aqueceu o lugar. Bem te avisei. De política sabias tu e blá-blá-blá, blá-blá-blá … Escuta-lhe o rugido.

        - Vejo o jogo malparado. Dali só vão sair disparates emproados, sem nada que se aproveite. Olha que sou eu que te aviso, apesar de ainda vos aparentardes. Enquanto precisava de nós, distribuía sorrisos e abraços, aparecia em todo o lado de cachimbo provocante, marcava presença na eleição de tudo e nada envergando roupa de marca comprada na feira dos onze e estendia a mão a qualquer farrapilha. Agora?! Nem com requerimento se chega à fala com tal excelência. Bons tempos em que tudo pareciam virtudes e competência para desempenhar a função! Agora chega ao desplante da ingratidão para com o próprio partido. 

    - Encontro-vos piada. Esses ódios de estimação costumam acontecer quando as pessoas são destronadas. No teu caso, nem esperaste que o homem caísse do teu altar de glória para que começares a crucificação. Hoje deves ser o seu inimigo número um.

          - Viste a desgraça que nos saiu na rifa?

        - Nada acontece por acaso. Está ali por direito próprio. Foste tu e outros que assim o quisestes. Preferistes jogar na incerteza. Trocastes o bem conhecido pelo mal por conhecer.

         - Nem tanto. Trocámos um mal conhecido por outro pior.

         - Estais desculpados. Gil Vicente manda os parvos para o reino da glória.

      - Se os arrependidos se salvarem... Este inferno é temporário. Nunca mais...

 - Quiseram assim e conluiaram-se vontades adversas para atingir um fim em si mesmo que era derrotar o poder instituído… é a vida.

 Meio ano antes, quando se ultimavam as listas para as autarquias, o Horácio berrava no café contra o poder local estabelecido e defendia a mudança, nem que fosse por um cão. Em cada apoiante dos detentores atuais do poder via um adversário político a quem era preciso dar luta esgrimindo as mesmas armas e argumentos. Foi nessa quase histeria que o abordaram para encabeçar uma lista. Consequente consigo mesmo, aceitou o repto e mediu forças com as listas apresentadas pelo irmão e pelo cunhado. A empresa era difícil, mas tinha consciência que num meio pequeno como o deles, um voto podia determinar o resultado. Convencera-se que desta vez conseguiria levar o Teixeira a subscrever a sua lista ou, no mínimo, a votar nele e no candidato à Câmara apresentado pelo seu partido. Havia bons motivos para isso: por vias colaterais, o candidato à Câmara era-lhe demasiado próximo para se julgar com direito a seu apoio incondicional. A pressão em que o Teixeira se viu envolvido, exercida de todas as formas, foi insuficiente para conseguir que ele se envolvesse em lutas partidárias nem sequer que disponibilizasse o seu carro para apitar na caravana final da campanha eleitoral. Horácio deu-se por feliz quando lhe ouviu a jura de que em circunstância alguma seria candidato de alguém, nem que lhe oferecessem qualquer lugar de destaque.

 - As nossas listas são de pessoal que vive aqui permanentemente. Dispensamos que venha alguém de fora governar as freguesias ou a câmara…estou ciente do valor do meu irmão, mas a sua disponibilidade é igual à de qualquer outro que viva na diáspora.

Os santos que temos à porta,

Melhores do que estrangeiros,

Têm uma palavra que conforta

Que vale por todos os dinheiros.

  - É um bom critério, mas também corre alguns riscos. Quando vem qualquer diabo de fora, que mal se conhece, o pessoal respeita-o mais porque o colocam num pedestal ante o qual se ajoelham. E na câmara convém gente imparcial e sem favores para saldar. Quem está por cá cria muitos anticorpos. 

       Aí estava o pomo da discórdia. Entre um fantasma destacado para ali pelo partido ou alguém de carne e osso com quem se cruzava todos os dias, o Teixeira preferia alguém amestrado pela máquina partidária, como sempre fizera. O partido por quem nutria maior simpatia mantinha essa forma de ação. Esperar que mudasse de sentido de voto era raiar o impossível, mas o Horácio ainda mantinha a mesma esperança de outrora. Sabia que trazê-lo para o seu lado se traduziria em uma boa dúzia de votos dentro da urna: os votos da sua casa, os da sua família e o da Tia Rosa, que se habituara a pensar a política pela cabeça do afilhado eram tão certos como o dele. Nenhum desses tinha filiação partidária, é certo, nem desejava tê-la, mas nunca engrossou o partido da abstenção. A dedução era lógica: em vários momentos deixara escapar apreciações de desencanto sobre o futuro autárquico e nas últimas eleições para o parlamento tinha dado alguns sinais de abertura.

      Fora tudo muito simples: como se aproximavam as eleições, o debate acontecia nas ruas, nas praças, na cidade e no campo, nos cartazes e nos meios de comunicação social. Ora, naquela noite, havia um debate na televisão pública entre os dirigentes das principais forças políticas que disputavam as eleições. Horácio propôs-lhe que o vissem no bar da Associação de Caça e Pesca de Fonte da Gralha, argumentando que ali haveria menos barulho do que no café ou em casa, onde os miúdos elevam o tom dos gritos na razão direta do interesse que o pai tenha em ver alguma coisa na televisão. O Teixeira concordou com a proposta e com os argumentos do vizinho. Bem sabia o que se passava em sua casa à hora das notícias e, se tentasse ver esse debate, seria igual ou pior.

 Acabado o jantar, foram. Ainda havia pouca gente. Puderam escolher um lugar mesmo em frente à televisão que debitava as últimas notícias do dia.

 Apareceu pouca gente. Horácio discordou que isso traduzisse desinteresse. O mais que poderia ser era cansaço e condições para que o debate fosse visto em casa, pois toda agente tem duas ou três televisões. Quando começou o debate, Horácio só ouviu a primeira intervenção do Secretário Geral do seu partido. Entre o muito que proclamou, destaca-se a passagem em que surgiram as promessas eleitorais: “O povo conhece-nos e sabe que pode confiar em mim e na minha equipa. Temos um projeto político para o país muito diferente do que apresentam os outros candidatos: mais e melhor saúde, melhor educação e justiça, mais emprego, mais desenvolvimento...

 O Horácio ouvia e bebia cada palavra como se lhe fosse servida com mel.

 - Isto é que é um candidato alto lá com ele! É de homens assim que o país precisa. Nem feito de encomenda! É um político dos pés à cabeça.

 - Promessas, promessas... – argumentava o Teixeira. - São todos iguais. Durante a campanha têm solução para tudo e depois fica tudo igual ou pior. Espera-lhe o rugido. Ouve agora a opinião do partido do governo.

 Qual ouvir?! O homem estava fora de si. Gesticulava, bebia, passeava e lançava impropérios. Quando terminou o discurso de que se alheara, Horácio elevou o tom das críticas ao que pensava que os outros teriam escutado.

 - Sabes o que eu acho, Horácio? Vamos beber mais um copo à saúde do teu candidato e, depois, cama que se faz tarde.

 - Gostaste de o ouvir?! É um regalo escutá-lo, ora conta lá, Teixeira.

 - Fala bem. Falam todos muito bem, o pior é depois, principalmente se:

Há promessas que estão vazias,

De qualquer intenção de cumprir

Podem juntar-se artes e magias

Aos palhaços que fazem sorrir.

         Recordando esse momento, Horácio achava que num momento em que a luta política tinha a ver com pessoas muito mais próximas, conseguiria encontrar a palavra certa para convencer todos os que ainda se encontrassem indecisos sobre o sentido a dar ao seu voto. Sendo candidato entre os seus pares, até se esquecia de pedir votos para si para ter tempo e lábia para vender a imagem do pretendente à Câmara. Com o seu partido, havia anos que lutavam pela sua conquista contra a aposta em candidatos que os outros iam buscar aos seus quadros, aos bancos da Assembleia da República ou à sociedade civil. Sem sucesso. Desta vez havia a esperança de depor um dinossauro da política gasto pela idade e por quatro mandatos consecutivos em autarquias diferentes.

         Os votos contados à mesa do café sugeriam um empate, mas havia uma dúzia de vizinhos que ninguém se atrevia a apostar para que lado tombaria. Horácio contava-os a seu favor e o irmão tinha a certeza que eram seus apoiantes incondicionais. Tudo estava em aberto e o contacto porta a porta intensificou-se nos últimos dias, suspeitando-se que de um dos lados estariam a ser usados meios de convencimento demasiado convencionais como dinheiro, eletrodomésticos e promessas de emprego.

        Para o Horácio, a sua vitória era de somenos importância face à conquista da câmara. Incansável a pedir votos para o seu candidato, a páginas tantas, descobriu uma fórmula, qual punção mágica, para aqueles que mostravam alguma reserva face a colocar os dois ovos no mesmo cesto, isto é, junta e câmara da mesma cor:

         - É fácil de resolver um imbróglio desses: vota no candidato do meu partido por convicção e em mim de olhos fechados – propunha ele.

         A esperança tornou-se realidade duas horas após o fecho das mesas de voto. A diferença era pequena, mas o suficiente para o povo sair à rua a aclamar o vencedor e apupar o vencido que assistiu a tudo a quilómetros de distância.

      A onda de mudança atingiu também as freguesias que procuraram a vila como se de uma invasão se tratasse. Horácio foi dos primeiros a chegar e a fazer-se notar com a sua traquitana e o altifalante em altos berros a debitar vivas ao vencedor. A sua atitude foi notada e saudada por alguns dos que sabiam da sua resistência na luta partidária.

        O alinhamento dos dois poderes autárquicos deixava adivinhar melhores dias para as ruas, rede de água e saneamento básico de Fonte da Gralha. Eram promessas que, campanha após campanha, ficavam guardadas na gaveta presidencial e que agora tiveram outro protagonista a fazer delas a sua bandeira para a mudança que se desejava imprimir a uma autarquia habituada à inércia.

       O adiamento na concretização da primeira das promessas dava azo a que os vizinhos duvidassem se valera a pena ter mudado. Horácio pedia ao povo que tivesse a paciência que lhe faltava a ele desde que o discurso do Presidente da Câmara se lhe tornava demasiado previsível, gasto e politicamente incorreto sempre que lhe apresentava qualquer pedido de financiamento.

         - A Câmara está sem margem de manobra nenhuma. Tem uma dívida muito maior do que alguém imaginava – desculpava-se ele. – Lembro-me do que prometi, mas é necessário esperar. No próximo ano...

         - Prometemos obra desde a primeira hora. Estamos obrigados a honrar a palavra. Também está em causa o partido. Câmara e Junta do mesmo partido, é responsabilidade redobrada.

    - Aí calma. Apresentei-me desde a primeira hora como independente. Nem lhe devo nada a si nem ao partido.

       Aquela ingratidão desiludiu-o. As amenas cavaqueiras de outrora transformaram-se em rosários de insultos e impropérios que envergonhavam quem os escolhera.

       - Vidas que tivesse, nunca mais me davam a volta - desabafava. – Quem quer a bolota, trepe! Se estivesse nas minhas mãos…

Júlio Rocha (20/5/2025)

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