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A mostrar mensagens de julho, 2025

PODER DA ESPERANÇA

Há ocasiões para fazer e desfazer, Para planear e correr alguns riscos, Motivos para sorrir e para sofrer Horas de calmaria e de chuviscos.   Há tempo para a leitura e a escrita Sem calendário definido nem alheio: Na minha história sou eu quem dita Para onde quero ir e por que meio.   Se alguma porta me ficar aberta A convidar-me a passar por ela Ficarei feliz com tal descoberta Ainda que seja uma simples janela.   Falta-me tempo para olhar atrás Porque o início me fica distante Busco uma saída que seja eficaz E que traga um prazer bastante.   Com os olhos na estrela polar, Torna-se simples ver o caminho E fico mais feliz se puder evitar Ter de fazer o percurso sozinho.  Júlio Fagus (31/7/2025)

PODE LÁ SER?!

Cada vez que preciso ajuda e grito O que vem até mim é tão só o eco Como se perante um homem aflito A solução fosse atirá-lo para o beco.   Cansado de assistir a essa vil atitude Lamento sozinho em tom de revolta Sem contar sequer que alguém ajude Ou que possa haver uma reviravolta.   Perante pessoas sempre ocupadas, A olhar para trás ou para o umbigo Tento estudá-las, tiro coordenadas, Para estar seguro do que julgo e digo.   Onde estão agora gestos de bondade De que há referência em livros antigos? Tudo cede ao tempo e peso da idade, Qual cadinho gasto a destilar amigos?   Como eu gostava de recuperar da lama A pureza manchada sem me aperceber!... Neste quadro triste, se uma voz chama, Sem uma resposta amiga… Pode lá ser?! Júlio Fagus (29/7/2025) 

É HORA DE FESTA

No delírio coletivo e nos arraiais Onde a folia tem lugar de relevo Participo com gosto e quero mais Cumpro a minha parte como devo.   Sinto-me bem nessa onda gigante Que avança com a música na cidade E só peço à minha alma que cante Enquanto tiver essa força e vontade.   Como poderia eu ficar indiferente Ante o entusiasmo que me rodeia? Sinto-me irmão de toda esta gente Que celebra a vida se dança e passeia.   A vibração que existe dentro de mim Tem uma força, um brilho e uma rima Que lhe dão mais aroma que o alecrim Na candura de tudo o que nos anima.   Grato ao ambiente de festa partilhada Na multidão com fome e sede do divino, Sinto-me um caminheiro nesta estrada Atento a sinais da graça, qual peregrino.  Júlio Fagus (28/7/2025)

INTROSPEÇÃO

Onde estão as borboletas que canto, As aves canoras para som de fundo? Onde se escondeu o vento, esse santo, Sempre apressado em volta do mundo?   Onde correm os rios de águas claras, Os mares que via sempre serenos? Os altivos montes e as obras raras O espaço para grandes e pequenos?   Onde estão os amigos que via antes Como se houvesse amizade eterna? Ficámos cada vez mais distantes: Nem sequer nos vemos na taberna.   Sinto a ausência dos que vi partir, De quem amava e partiu para o céu… Com eles via-me sempre a conseguir, Eram ganhadores sem haver troféu.   Ao ouvir sozinho o que vai na alma Sinto que a vida me foi generosa: Há horas de luta e outras de calma, A evitar espinhos no caule da rosa.  Júlio Fagus (27/7/2025)

NUNCA É TARDE

  Há erros que duram anos e são erros, Virtudes que estão ali, mas sem brilhar Não troco a divindade por bezerros, Vistoso cadafalso por modesto altar.   Continuo a apreciar qualquer sorriso, Uma pessoa sensata vale um tesouro, Quero ver-me com gente de juízo Com um fervor pela vida duradouro.   São as minhas preferências naturais Para que permaneça o bem que há; Se vejo algo que me atrai ainda mais Quero vê-lo a nascer e florir desde já.   Há caminhos que podem ser abertos, Pessoas que guardam tesouros em si Bem poucos corações estarão desertos, A felicidade não se esgota por aqui.   Vejo que nada é eterno nem seguro, Que posso melhorar no que faço Sinto um apelo enorme do futuro: Nunca é tarde para dar outro passo.  Júlio Fagus (25/7/2025)

ABRE-SE A PORTA

  Bati à porta da Ventura com algum medo, Afastei-me um pouco para me ver seguro Sentia-me a entrar no denso arvoredo Onde nem sequer se vislumbra o futuro.   Ouvi o eco do meu toque nessa porta E alguém que responde: « pode entrar », Encontrava ali o elixir que me conforta E um pretexto para uma troca de olhar.   Perante a minha recusa de obedecer, Eis que uma esbelta figura vem abrir; Era milagre o que estava a acontecer E a inspiração começa logo a surgir.   Merecia ser cantada aquela bela musa Na transparência ingénua da roupa fina Cobria-lhe os ombros a decotada blusa Ficava a dúvida se era dona ou menina.   Mais um pouco e percebo pela atenção Como Deus é generoso com quem quer E associa sentimentos de bom coração Àquela beleza em estado puro de mulher.  Júlio Fagus (24/7/2025)

COMPREENSÃO?

Escuto a voz do silêncio a suplicar Trégua na guerra que faço comigo: Encontro em cada gesto, cada olhar, Mais do que ao mirar o meu umbigo.   Há todo um mundo que me sorri Nas ocorrências como nas pessoas Que mostram que há caminho ali Recheado de iguarias e coisas boas.   A vida revela encanto à flor da pele Ao olhar atento e sem preconceitos, Que transforma gestos em puro mel E faz das obrigações outros direitos.   Os outros, sempre os outros, a ver Com olhar sôfrego para a acusação, Sentem neles um mórbido prazer De celebrarem a fraqueza e perdição.   Onde vejo a flor, veem eles espinho Sorriem quando vivo em cruel luto, Espalham as pedras do meu caminho Como se me iludisse quanto ao fruto.   Eu, porém, sigo na minha estrada Sem dar ouvidos a velhos do Restelo: Busco o Sumo Bem sem pedir nada, Está ao meu alcance e quero vê-lo.   Compreensivo com fraquezas alheias, Cansado de tomar a todos co...

PALAVRAS

Escorrem palavras e ideias Até num corpo alucinado; Brotam da pele e das veias Do cabelo e de todo o lado. Num turbilhão que se agita Na cadência dos sentidos Nenhuma palavra é maldita Perante os espaços perdidos. Tenha sentido ou só forma, Seja para chorar ou para rir Qualquer palavra, por norma, Tem uma função a cumprir. Há palavras que são beijos Outras, lanças ou punhais, Umas alimentam os desejos Outras morrem nos jornais. Há palavras que são fogo, Outras, qual suave aragem, Há naquelas todo um jogo E nestas, culto da imagem. No reino dos sentimentos Onde o amor é mais forte São muitos os pensamentos Que vivem para lá da morte. Onde há beijos e carinhos Qualquer aroma há no ar Pois são ruas e caminhos Por onde dá gosto andar. Quero palavras de beijos Quero beijos de mil cores; Para satisfazer os desejos, Estimo ver-te sem ter dores. Júlio Fagus (18/7/2025)

DESLUMBRAMENTO

Quero ver o sol nascente Ante a face negra do dia Pois a sombra é repelente Se nos ofusca a alegria. As notícias que me deste Desse teu reino de espuma Cheiram a sul e a leste, Aos mares e rio à uma. És cego porque assim gostas E julgas que todos são iguais Bem podes roçar as costas Nas janelas e nos beirais. Quem me dera ter jardim Como o teve Eva e Adão Em que tudo fosse, enfim, Muitas flores, vinho e pão. Quem me dera ter cavalos Ornados ou sem ornar Para estar sempre a montá-los Em busca do melhor par. Nesse sonho que acabou Ao olhar para o que tinha Fiquei bem com o que sou Com a vida que é só minha. Júlio Fagus (4/7/2025)

NOITE

  Não vejo a estrada aberta Por onde queria avançar Mas sinto que a fome aperta Quero as estrelas e o luar. Pedi essa graça em prece Ao sol que anda e não para Para que acorde e apresse A lua cheia e a noite clara. Ouviu-me tão sem rancores Que logo percebi que viria A lua com seus favores Fazer da noite claro dia. Há fadas e estou a vê-las Em cujos braço adormeço É hotel de muitas estrelas Só posso pagar este preço. Avança tão sem espavento Que mal se nota que avança Haver noite no pensamento É pior que espada ou lança. Há brilho nas noites escuras Trevas nas longas esperas… Queres o sol e até procuras Entre estrelas as quimeras. Tenho o sol no dia claro, Estrelas na noite estrelada Quando há luar nem reparo Que o ver não custa nada. Nunca fui dado aos destinos Nem a horóscopos de jornais Porém como os bons meninos Vou cedendo cada vez mais. Há coisas que quero e posso Outras que posso e maltrato O que o fado diz que é nosso Coloca-no-lo o fado no prato. Não me venhas com crenças ...