Tanta Gente
Quando
num vemos milhentos
Homens
bons ou mulheres feias,
Hão de
chegar os momentos
Em que
acertemos as ideias.
Explico
agora mesmo. Sei que conhece um exorcista que tem resolvido com sucesso casos
idênticos e, nestas coisas, sabe como é: em horas de aflição, agarramo-nos nem
que seja a uma palha.
- A única
pessoa que conheço a trabalhar nessa área é da tua terra.
- Está
vossemecê muito enganado. Teve a sua época, mas agora deixou de advogar!...
Para o
cigano, deixar de advogar significava que se tinha revelado incapaz para
devolver a saúde a mulheres na situação da sua. As hemorragias eram tão
frequentes que só podia ser obra do diabo ou de alguma praga que lhe tivessem
rogado. Em qualquer dos casos, só um bom bruxo ou curandeiro havia de
substituir o médico a que só recorreriam em situação extrema. O marido recusara
enquanto podia a ideia admitir a hipótese de estar a ser obra do diabo, mas
vira-se obrigado a concordar com a sua Maria dos Anjos. Fora a necessidade que
o empurrara para aí. Beijara todas as pagelas e imagens de santos que tinha colecionado
ao longo de muitos anos na esperança de alguma força superior vir em seu
auxílio naquele momento, sem resultado. Que ninguém lhe viesse com a conversa
que podia ser por falta de fé, que lá nisso o José António considerava-se
crente como os primeiros, nem por encarar a aflição da mulher como assunto de
somenos importância, pois sofria tanto quanto ela e desejava vê-la
restabelecida, ainda que fosse apenas por se ver sem apoio da família. A mulher
vivia o mesmo drama: erradicados dos clãs de origem como escória da escória,
encontraram, um no outro, o esteio para suportar as agruras da vida.
- Só podemos
contar um com o outro, ora é rapariga?
A Maria dos
Anjos pensava o mesmo, mas, se pensasse de forma diferente, estaria obrigada a
concordar com o marido para quem mal olhava a direito, tamanho era o medo que
lhe tinha desde que a mandara para o hospital com uma bengalada por se ter
metido no meio de uma discussão entre ele e o irmão mais novo.
A história
conta-se rápido: ainda mal acabara de conhecer o José António e nem imaginava
que se pudesse chegar a tamanhas discussões entre irmãos. Com os dela, nunca se
passara algo parecido, honra lhe seja feita e nem por isso o ambiente que a
rodeava lhe era favorável. Os motivos eram diferentes. Tinham a ver com o
orgulho da raça que ela, na sua ingenuidade adolescente, ousou pôr em causa na
casa onde servia. A culpa nem foi dela que tão encurralada se viu que só teve
como saída perder a virgindade com o filho do patrão. Tivesse o maroto ficado
bem calado com a façanha e nada se sabia, nada se comentava e nada de mal
aconteceria. Coisas de rapazes! A notícia correu mais veloz do que fogo em
seara ressequida e a família levou muito a mal a ambos. A primeira represália
foi retirá-la do local do “crime” na esperança de a recuperar e ver casar com
alguém da sua condição. Era demasiado tarde. A novidade chegara a todos os
possíveis pretendentes que nunca mais a encararam como real opção. Tentou de
tudo. Emigrou, associou-se ao grupo duns primos afastados onde a educação era
mais liberal, mas nada. Teria que arrastar a sua vergonha até aparecer um
pretendente sem tabus que a recebesse como esposa.
Teve sorte,
no meio de tanto azar. Conheceu o Zé António na apanha da azeitona da Terra
Quente e estranhou vê-lo sozinho.
- Sou um
fugitivo vencedor – explicou-lhe vibrante de inexpugnável convicção. – A minha
família está toda na Terra Fria, mas, desde que tentei namorar uma moça de
Teixedo nunca mais me aceitaram como antes. Fiquei sem telha e por aí me
governo como posso, fugindo ao ultraje de me encontrar com os restantes.
- Moça da
aldeia? Curioso. A tua história é paralela à minha, mas no masculino. Também me
vi rejeitada por isso mesmo. Foi há muito tempo e sempre esperei que mais tarde
ou mais cedo haviam de esquecer, até porque:
Com morte ou sangue à mistura,
Há uma memória quase eterna,
Que parece que alivia e perdura,
Finge-se morta quando hiberna.
- Tinhas
razões para essa expetativa porque faltavam esses ingredientes, suponho eu.
- Credo! Foi
como se existissem. É difícil conviver com esta realidade, mas enfim.
- Se fosse na
minha família, estarias condenada ao opróbrio e à irrisão para sempre. É o que
me espera. Acho um exagero. Que se cultive a pureza da raça é uma conta, mas
que alguém seja rejeitado dessa forma, parece-me demasiado.
Pareciam
fugitivos, os ciganos. Como se uma qualquer desgraça tivesse batido à porta de
todos, abandonavam a rua que ocupavam e deambulavam como se procurassem a
segurança num qualquer lugar próximo com esperança de voltar logo após. Tinham
os seus ritmos. Eram certos no anúncio da festa e foragidos depois de apanharem
as canas.
A nostálgica
memória da transumância por estradas e caminhos dos enormes grupos de ciganos
que carregavam consigo tudo quanto tinham em cima de quatro jumentos
transporta-me para os tempos da meninice em que com eles convivia a uma
cadência trimestral ou mais frequente, dependia das épocas. Eram famílias
inteiras com elementos de todas as idades, onde a respeitável figura tutelar de
um patriarca de longas barbas brancas era a garantia de unidade do grupo e de
responsabilidade em caso de desvio por parte de algum elemento do clã.
Tal quadro
esvaneceu-se na sociedade e na memória e a socialização a que se viram
obrigados em resultado do tratamento privilegiado por parte das autarquias que
lhes distribuíram casas a troco de quase nada, desnaturou-os e obrigou-os a
buscar novas formas de vida com especial incidência no comércio de roupas em
tudo iguais às vendidas pelos seus pares. Que alguns vivem com alguma opulência
e desafogo económico, é uma constatação a olho nu como o atestam os carros que
lhes servem de instrumento de trabalho. O comércio dos burros e dos machos é
coisa do passado.
Cidadãos como
os restantes, vivem do seu trabalho sacrificado e experimentam as mesmas
alegrias e tristezas que sentem os demais. Há um maior envolvimento do grupo
nos acontecimentos que os afetam, mas entre os grupos há estratos naturais,
quiçá resultantes de anos de sucesso ou insucesso dos antepassados. Gosto de os
ver sempre, mas admiro o orgulho de raça que se manifesta por ocasião de uma
boda cigana. A TV tem-nos mostrado situações em que a dimensão, duração e
abundância raiam os contos de fadas. É nessas ocasiões que mostram tudo aquilo
de que são capazes porque podem livremente mostrar tudo o que lhes vai na alma.
A festa tem de ser sempre grande e sempre maior do que a dada por outro clã. O
desafio é entre famílias, porque também entre eles existem rivalidades. Mal
correm as coisas quando alguém desiste desse confronto permanente!
A Maria dos
Anjos e o José António são moços para quarenta e cinco anos. Desconheço o tempo
que levam juntos, mas, a certa altura, uma qualquer repartição pública
exigiu-lhes um documento mais nobre do que a sua palavra honrada para
certificar que eram marido e mulher. O pedido só deixava uma saída: de pouco
valiam juras, a presença dos filhos ou o testemunho de pessoas do seu grupo ou
das tidas por sérias. Estavam obrigados a oficializar uma relação que mantinham
havia uns bons trinta anos. Decidiram casar. A vontade de o fazer era pouca,
mas, melindrar a Assistente Social, que gastou uma eternidade para lhes fazer
compreender que as leis são iguais para todos e que para ter direitos é preciso
assumir obrigações, podia ser um erro que pagariam demasiado caro.
- Se a menina
Eugénia quer que nos casemos, casamo-nos. Queremo-la é a si para madrinha –
propôs José António com aquela afoiteza que determinação da senhora acicatara
antes. - Aceita?
- Que hei de
fazer? Comove-me a generosidade do convite e a simpatia com que sempre fui
tratada. Sendo assim…
Estava dado o
primeiro passo e garantida uma colaboradora para tudo o que mexesse com papéis.
Para Eugénia, era apenas mais um momento de generosidade, para os noivos, pouco
acostumados a lidar com impressos e listas de espera, a partir daí, tudo se
tornou mais fácil. Cada documento necessário para que tudo fosse resolvido sem
desperdício de tempo, era ela que marcava o dia e a hora em que haviam de ir a
cada local. As portas ficavam escancaradas quando apresentava o caso como uma
vitória pessoal que era necessário levar até ao fim. Hábil na arte de ocupar
uns e outros a favor daqueles que tinham receio de entrar nos locais em que
trabalhava gente engravatada, estava habituada a facilitar a vida aos outros e
agora cobrava a sua parte pedindo que lha facilitassem também. José António e
Maria dos Anjos, como dóceis cordeiros, acompanhavam-lhe a filantropia para
todos os lugares onde fosse necessário substituir a assinatura pela impressão
digital e consideravam «abençoada a hora»
em que tinham conhecido Eugénia.
Habituado a
ver um José António senhor da sua vida e da sua história, estranhei tal
comportamento.
- Que se
passa contigo, homem? – questionei-o. – Meteste-te em alguma… Vejo-te tão
assustado…
Ainda que se pusesse travão
Ao que a nossa alma sentia,
Iriam mostrar-se tal qual são
Tanto o medo como a alegria.
- Nem queira
saber!... Vou casar um dia destes. Nem lhe conto. Dois velhos...
- Casar?
- Veja lá. Na
Segurança Social pediram-me um papel em que constasse que estou casado com a
Maria dos Anjos. Bem tentei que me dispensassem dessa trabalheira, mas foram mais
teimosos do que era o último macho que vendi.
- Pensei que…
- Tenho-o por
meu amigo e quero que vá beber um copo connosco.
Naquele
instante, garanti a mim mesmo que faria os possíveis e os impossíveis para
estar presente.
- E que
prenda tenho de te dar, Zé António?
O cigano até
levou a mal que tivesse levantado uma questão dessas e retorquiu-me:
- Quem tem de
ficar agradecido sou eu. A nossa amizade vale mais do que todas as prendas.
Tamanha
firmeza na recusa era suficiente para me dispensar do encargo. Zeloso dos meus
princípios decidi, levar algo que lhe fosse útil. Era a primeira vez que tinha
um privilégio desses e, se a todos os níveis considerava o José António um
amigo como todos os restantes, estava obrigado a mostrar-lho na prática. Tudo
ficou fácil a partir do momento em que decidi que para acontecimentos iguais
devia oferecer prendas iguais. Ora, como tinha o casamento de um colega de
trabalho, quando me decidisse por uma prenda, estava escolhida a outra.
Ao ver chegar
o dia da boda, comecei a magicar quadros sombrios que apontavam para um risco
sem necessidade. E se tudo aquilo descamba para excessos de álcool, linguagem? Imaginava-me
um intruso no meio de um enorme grupo de morenos rostos temperados pelo sol e
pela chuva. Quando o coração dominava, sentia calafrios ante a hipótese de me
ver ali perdido; se ouvia a razão, percebia que nada tinha a recear entre
amigos: estaríamos todos pelo mesmo motivo e com igual prazer em ajudar à
felicidade dos noivos.
No dia e hora
marcados, estava na capela de S. José, que me tinha sido indicada no convite
oral. Fui o primeiro a chegar por me parecer útil conhecer a família do José
António aos poucos e ir adaptando a vista a tantas caras novas, pensava para
comigo. Um quarto de hora depois, passou por mim a primeira pessoa. A avaliar
pelo vinho e pela água que transportava em duas garrafas de plástico, só podia
ser o sacristão. Respeitámos o silêncio um do outro. Fiquei com duas certezas:
a cerimónia era ali mesmo e estava para começar daí a pouco.
Esperei mais
um pouco. Um carro parou na retaguarda do meu. Olhei pelo retrovisor. Três
figuras conhecidas: o padre que iria abençoar aquele amor, dera-lhes boleia.
- Parabéns. Os
convidados demoram. Que é feito do resto do pessoal? – perguntei respeitosamente
aos sorridentes noivos.
- Ontem
emborracharam-se e ficaram no acampamento – respondeu sem detença Maria dos
Anjos, orgulhosa do momento que se avizinhava.
- Ainda
faltam os padrinhos.
- Só somos
nós. A madrinha falhou à última hora. Que se há de fazer? O senhor padre
apercebeu-se que só vínhamos os dois e por isso trouxe-nos.
- É verdade. Com
todo o gosto. Vinham a pé. Ainda estavam próximos do acampamento, mas
reconheci-os. Trouxe-os e até foi bem porque assim podemos começar quando
quisermos – confirmou o padre.
José António
estava conformado com as ausências, como se aquele cenário fosse o que
idealizara. Estranhei com pena deles e de mim. Insisti na falta dos padrinhos,
mas o padre minimizou aquela falta e, pelo modo como lidou com a situação,
deu-me a entender que estaria à espera desse contratempo e antecipara uma
solução:
- Se todos os
problemas fossem tão fáceis de resolver como esse, estávamos bem. As
testemunhas tanto podem ser um homem e uma mulher como dois homens ou duas
mulheres. Estou a ver ali o senhor João. Ele e o senhor são duas respeitáveis testemunhas.
Aquela
opinião era uma ordem naquele contexto, pensei sem esboçar qualquer protesto. Só
me restou cumprir. Terminadas as formalidades religiosas entreguei ao José
António a prenda e parti. Agradeceu e entregou-a à esposa para que ela a
guardasse como se ele fosse indigno de tanto. Ela sorriu para mim a transmitir
a ideia que estaria a exagerar ao mostrar-lhes que eram merecedores de tanta
consideração. Depois, num sentido lamento continuou:
-
E agora?... Como lhe vamos retribuir?
A
frase tocou-me profundamente. Nunca me apercebera que, para lá da simpatia,
aquele casal nada mais podia partilhar com os amigos. Confirmei-o logo de
seguida. Ao passar junto ao acampamento abrandei a velocidade para apreciar o
ambiente. Ninguém. A borracheira a que se referia nada mais era do que a forma
menos penosa que lhe ocorreu no momento para justificar o facto de viverem
sozinhos aquele momento. A posterior atenção redobrada evidenciou a rejeição
por motivos passionais a que tinham sido votados pelo clã que os gerou.
-
Palavra de honra que foi tudo uma questão de saias – jurava o José António.
Recusava-me
a acreditar na fatalidade de haver uma diferença tão abissal entre ciganos.
Aqueles só podiam ser uma exceção na regra geral de abundância em que acontecem
semelhantes festas. Comentei com amigos que lidavam com os seus problemas e
integração com o mesmo à-vontade com que lidaram na vida com todas as missões
que lhe foram confiadas. Nunca tal ouviram. Tudo o que presenciaram ou ouviram
ia para além do que qualquer ingénua mente pode imaginar olhando para as
condições em que teimam em viver.
-
Numa hora dessas, vão buscar o parente mais afastado e tratam-no como um irmão
a quem se exige apenas barriga capaz de excessos.
-
Mas…
-
Apadrinhei vários e sei do que são capazes uns para os outros. Para quem esteja
ali por direito diferente da consanguinidade, como era o meu caso, os noivos
cedem-lhe a primazia na singeleza do trato. Entenda bem isto:
Quem olha para o lado e vê
O que leva os pobres a agir
Só pode perguntar porquê
Ao vê-los sempre a sorrir.
Acreditei.
Reconhecia-lhe longa experiência e honestidade nas apreciações. Assim quisera
eu sentir aquele momento único que tanta mossa fizera na minha mundivisão dessa
franja da sociedade.
Passaram
anos sem que tivesse oportunidade de assistir a outro casamento entre ciganos.
Ia-me convencendo que a realidade estava muito longe da ficção e irmanava-os ao
cidadão comum. Um amigo meu foi convidado a passar no copo-d’água duma boda contranatura.
Nesse dia tínhamos outros compromissos em conjunto e acabámos por ir os dois
beber um copo com os noivos. Fi-lo sem qualquer previsão sobre o que nos
esperava, tão má tinha sido a minha experiência. Estacionámos a alguma
distância de forma a garantir que, quando quiséssemos ir embora, a rua estaria
desimpedida. Aproximámo-nos.
-
Parece que pariu aqui a galega. Isto é um casamento ou é a festa da aldeia? –
perguntei incrédulo.
-
É um casamento. Ainda só viste os convidados. A mesa…
-
Assim vale a pena!...
-
O noivo anunciou-me que tinham uma vitela inteira, cordeiros, cabritos,
marisco. Ali deve haver de tudo em abundância. O noivo vive muito bem.
Entrámos.
A primeira surpresa que nos esperava foi a arte de bem receber. A presença do
meu amigo era aguardada com expectativa. O noivo tinha sido casado
anteriormente, mas ficara viúvo. Do primeiro casamento tinha ficado com uma
chusma de filhos, grande parte deles mais velhos do que a mulher que o pai lhes
ia dar por madrasta. O júbilo com que aceitaram a decisão do pai estava
espelhado no rosto de todos, mas era o filho mais velho que sintetizava em si a
alegria da família e o gosto em brindar o pai com uma festa de casamento tão
forte como a que ele e os irmãos tiveram. Tudo era abundante, bem confecionado
e servido com alegria. Nada podia faltar. Nada faltava.
-
Esta gente é pura. Até levavam a mal se lhes faltasse ao compromisso de passar
por cá. E reparaste que ninguém estava com os copos? Aquela gente é mesmo
assim. Quando gostam, gostam. Como estavam a contar comigo, contiveram-se.
Estou certo que, se voltássemos lá daqui a uma hora, havia copos a mais. A
festa a séria só começa depois de receberem bem os convidados. É uma maravilha
esta gente – elogiava-os o meu companheiro no regresso a casa.
-
Estiveste em mais casamentos daquela família?
-
Convidam-me sempre. Sinto a obrigação de passar lá. Hoje é que atirou para mais
tarde, mas das outras vezes vou logo no princípio. As festas dos casamentos da
família têm sido todas ali.
-
Mas vivem cá?
-
Daquela caterva, só os noivos é que estão na aldeia. Todos os outros vieram por
causa do casamento. Uns vivem no estrangeiro, outros em Lisboa, no Porto, onde
calha.
-
Tanta gente. Assim, vale a pena!
-
Admiras-te? Olha que
Se sentes tremer a alma
Pois o frio te entra fundo
Procura manter a calma
É igual em todo o mundo.
Júlio Fagus
Muito bom, obrigado.
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