COMPREENSÃO?

Escuto a voz do silêncio a suplicar

Trégua na guerra que faço comigo:

Encontro em cada gesto, cada olhar,

Mais do que ao mirar o meu umbigo.

 

Há todo um mundo que me sorri

Nas ocorrências como nas pessoas

Que mostram que há caminho ali

Recheado de iguarias e coisas boas.

 

A vida revela encanto à flor da pele

Ao olhar atento e sem preconceitos,

Que transforma gestos em puro mel

E faz das obrigações outros direitos.

 

Os outros, sempre os outros, a ver

Com olhar sôfrego para a acusação,

Sentem neles um mórbido prazer

De celebrarem a fraqueza e perdição.

 

Onde vejo a flor, veem eles espinho

Sorriem quando vivo em cruel luto,

Espalham as pedras do meu caminho

Como se me iludisse quanto ao fruto.

 

Eu, porém, sigo na minha estrada

Sem dar ouvidos a velhos do Restelo:

Busco o Sumo Bem sem pedir nada,

Está ao meu alcance e quero vê-lo.

 

Compreensivo com fraquezas alheias,

Cansado de tomar a todos como iguais,

Enquanto correr o sangue nestas veias

Só vou abrir a porta aos amigos leais.

 

Os outros, como quaisquer cães vadios,

Ficarão de fora a destilar o seu veneno,

A tecer a teia da morte com os seus fios,

Até que os veja desaparecer em pleno. 

Júlio Fagus (23/7/2025)

Comentários

  1. Parabéns 👏👏.

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  2. Entendo a poesia como sonoridade de ideias e sentires. Gostei. Abraço

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