ACUSAÇÃO
Andam mendigos nas ruas
Arrastando a própria vida,
Levam dores que são suas
Muito para lá da medida.
São homens de olhar tranquilo
Para quem a sorte é madrasta,
Mas se eu me cruzo com aquilo
Logo me convenço que basta.
Levam uma vida em suspenso
Sempre esperançados que mude,
Olho o quadro e me convenço
Que ali falta dinheiro e saúde.
Se os ricos lhes dão migalhas,
Caem-lhe na mão como esmola
Metem-se com eles os canalhas
Quando seguem para a escola.
Um pombo que por ali passa
Vendo tanta calma destarte
Desce do telhado à praça
Para reclamar a sua parte.
Se um cão vadio aparece
Quando está a mesa posta
Por ter fome, logo lhe apetece
Partilhar o pão e até gosta.
Um cão que partilha a cama
Com o dono em noite calma
Mostra-lhe bem quanto o ama:
Aquece-lhe o corpo e a alma.
Malvada seja a ventura
Que caiu sobre esta gente
Desde o berço à sepultura
É negro o fado que sente.
Quem tem olhos, que repare,
Quem tem poderes, que decida,
Quem tem um tempo, que pare,
Há tempo enquanto houver vida.
Júlio Fagus (14/4/2025)
Parabéns, Rocha.
ResponderEliminarGostei particularmente da alusão ao cão!
Graça Morais
Gostei .
ResponderEliminarParabéns